Home Páginas Azuis

O talento e suas origens Dona de uma das vozes mais elogiadas da nova MPB, a Diva Pop do Brasil revela os bastidores do elogiado projeto Duetos, em que homenageou Luiz Gonzaga e seu avô Zé Dantas, além de falar sobre sua carreira, seus planos e a sua paixão pelo Recife.

Reunir um time de peso da música nacional para fazer uma grande homenagem a Luiz Gonzaga e Zé Dantas, dois dos nomes mais importantes da música brasileira de todos os tempos e criadores de clássicos do forró, como “O Voo da Asa Branca”, “O Xote das Meninas”, “Cintura Fina”, dentre outros sucessos, seria uma tarefa difícil para qualquer artista. E ainda mais complicado seria dar uma roupagem Pop a estas composições. Porém, foi com muita criatividade, ousadia e sobretudo grande talento que Marina de Sousa Dantas Elali, 32 anos, acabou produzindo um dos grandes projetos da música nacional em 2013. A gravação do CD/DVD “Duetos” marcou, além da concretização de um projeto pessoal, outro sucesso na bem-sucedida carreira da neta de Zé Dantas, apontada dentre as mais talentosas cantoras da MPB na atualidade. Desde pequena, Marina já carregava o gosto pela música, muito influenciada pela obra de seu avô. Começou sua carreira em 2004, participando de um reality show musical na TV Globo e logo depois despontou no cenário musical com o hit “One Last Cry”, tema da novela Páginas da Vida, em 2006. E não parou de fazer sucesso. Já são quatro discos gravados e dois DVDs, com grande aceitação do público e da crítica. Essa simpática voz natalense e com uma enorme identificação com Pernambuco e, em especial, com o Recife, fala nesta entrevista de como foi concretizar a homenagem ao seu avô e a Gonzagão. Mas também da sua carreira e dos projetos para o futuro.

EP – Em 2013, foi lançado o CD/DVD “Marina Elali – Duetos”, com participações de grandes nomes da música brasileira, como Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Ivete Sangalo e outros grandes nomes. Nesse DVD, gravado em 2012 no Recife e que teve grande repercussão no Brasil, você deu uma roupagem completamente nova a grandes clássicos do Forró criados por Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Mesmo não sendo uma cantora de forró, como surgiu a ideia de executar esse projeto?

ME – Eu estou muito feliz! Soube pelo pessoal da Som Livre, a gravadora que lançou o DVD, que está entre os mais vendidos do Brasil e, eu acho, não há melhor resposta que a do público. As pessoas gostaram muito. No início, eu até já contei essa história em algumas entrevistas de TV, tentei muito fazer os arranjos de uma forma mais tradicional, mas não tava combinando comigo e nem com a minha voz e ai pedi permissão a minha avó linda, musa inspiradora de Zé Dantas, Iolanda e disse: “Vó, não tá dando certo, acho que vou fazer do meu jeito”. E ela disse: “Minha filha, faça do seu jeito! Você é muito criativa, você também é compositora como seu avô, seu avô ia gostar do que você vai fazer”. E aí eu tomei essa liberdade. Conversei também com Rosinha Gonzaga, que é filha de Gonzagão. E tomei a liberdade de fazer um projeto totalmente diferente, da minha forma. E acho que na verdade até o mais bacana desse projeto foi isso, que a gente conseguiu alcançar nosso objetivo, que é levar a musica de Gonzaga pra outros públicos e pra outras gerações. Recentemente, a gente fez “Vem morena” com um arranjo completamente diferente. Já vi muitas crianças cantando, recebi vídeos de crianças.Talvez são pessoas que não iriam se interessar tanto pela música de Gonzagão e agora vão se interessar… Porque está de uma forma nova, diferente. E quando a gente gravou fazia 50 anos da morte do meu avô. Muito tempo já passou. Precisava mesmo alguém ter essa ousadia, essa coragem de fazer um pouco diferente. E eu fiz. Fiquei super satisfeita com o trabalho. Estou muito realizada, muito feliz. Muito orgulho de ter esse projeto, que era um sonho muito antigo, um sonho de criança. Porque na minha infância eu já entendi a importância do meu avô Zé Dantas dentro da música brasileira e entendi essa amizade bonita que existia entre ele e Gonzagão, essa parceria bonita… E eu sonhava muito de poder parar tudo e fazer uma homenagem a ele. E graças a Deus e a muitas pessoas que se envolveram no projeto, que ajudaram de forma muito positiva, a gente conseguiu realizar essa superprodução, que aconteceu no Recife. E eu acho que não tinha lugar melhor no mundo pra criar esse DVD do que Recife! Porque tem tudo a ver, os dois são pernambucanos, o público conhece tudo, eu também recebi o título de Cidadã do Recife e fui receber de coração… Amo o Sport, passei muitos momentos felizes da minha vida em Recife, de infância e adolescente. Enfim, tou muito feliz, muito realizada… As coisas fluíram da melhor forma possível… Acho que, no fundo, no fundo Gonzagão e meu avô estavam me iluminando o tempo inteiro neste projeto. Um projeto feito com muita fé, com muito entusiasmo, com muita paixão mesmo a música deles dois.

EP – Você temeu críticas dos mais tradicionalistas por ter dado ao forró de Gonzagão, tão marcado pelo estilo “pé de serra” e regional, uma cara tão “pop” no DVD?

ME – Olha, no início eu tive medo porque sabia que tava trabalhando com um repertório muito tradicional. Mas eu sou artista no real sentido da palavra. Eu sou uma pessoa livre, ousada, como eu acho que todo artista verdadeiro tem que ser. E ai eu pegar uma música e simplesmente copiar um arranjo que Gonzagão fez 50 anos atrás, artisticamente isso não tem tanto valor. Então utilizei mesmo da minha criatividade e fiquei muito feliz. E depois que eu criei coragem de fazer um trabalho diferente com essas músicas, aí não liguei mais não, porque eu acho que o artista tem que seguir a intuição dele e fazer o trabalho com amor. E se importar com quem vai gostar. Sempre vai ter alguma pessoa que não vai gostar, algum crítico que vai falar que não gostou… Mas eu acho que é importante o artista fazer a verdade dele. E eu segui a minha intuição o tempo inteiro no projeto, com verdade, paixão, com muito respeito à música deles dois e o resultado tá aí. Tá vendendo, tá fazendo sucesso, foi o especial ao ar na Globo Nordeste. E em outras emissoras da Globo também eles transmitiram o especial. Tive a presença dos maiores artistas deste Brasil, um time maravilhoso. Então, quem não gostar… (risos).

EP – Quais as influências musicais que o seu avô, Zé Dantas, trouxe na sua carreira?

ME – Ah, foi muito grande! Cresci ouvindo as músicas dele, de Gonzagão… Na escola, quando chegava a época de São João, ia dançar quadrilha e tocavam as músicas deles e de Gonzagão… Eu comecei a cantar no coral da escola quando tinha sete anos e aí já cantava músicas de meu avô neste coral. Ele me influenciou muito! E o interessante é que eu descobri na minha adolescência que eu também sou compositora, não sabia até então que eu tinha este dom. Acho que foi influência dele, veio no sangue mesmo. E eu tenho muito orgulho, desde novinha quando comecei a fazer shows, sempre quis fazer homenagens a ele, sempre gravei música do meu avô. E sempre do meu jeito, fazendo uma homenagem mesmo. Até porque meu avô fazia determinado estilo, eu faço outro… Cada pessoa de um jeito, mas ele me influenciou muito. É uma pena que eu não tenha conhecido ele, queria muito ter conhecido meu avô. Mas de alguma forma a gente tá ligado. Porque é muito forte, esse projeto todo não tive dificuldade, as coisas aconteciam… Davam alguns problemas assim, durante o processo. Na gravação foi tudo perfeito. Tinha uma força lá de dentro… Que me fazia continuar, seguir em frente. Não sei… Tem uma ligação espiritual com meu avô aí, além de toda influência que eu tenho da música dele. E o que eu mais aprendi com a obra dele é que a boa música nunca morre! E meu avô me ensinou isso, mesmo ele não estando aqui. Porque você pega uma música como “Xote das Meninas”, que vai ser um clássico da música brasileira pra sempre. Tem uma letra boa, uma música que tem um ritmo bom, tem um refrão bonito e uma letra inteligente. Onde ele mistura; tem o lado da menina, com a medicina, que era outra paixão dele e ele coloca a música com a medicina, as duas paixões juntas ali, ele era médico… Então, é encantador, sabe? Procuro seguir esse exemplo dele, sempre pensando que a boa música não morre e que vale a pena a gente sempre fazer o melhor possível… Pela arte!

EP – A música brasileira sofreu uma grande perda com a morte de Dominguinhos. O que você pode falar sobre ele?

ME – No dia que fiquei sabendo fiquei muito triste… Profundamente triste. Porque eu conheci Dominguinhos há 15 anos e a gente se tornou amigo. Dominguinhos participou do meu primeiro disco, do segundo e do primeiro DVD. E o único projeto que ele não participou foi esse DVD agora. Eu o convidei e ele falou que na data não ia ter como, pois estava em São Paulo e não ia conseguir chegar ao Recife. E eu falei pra ele que a gente ia fazer um vídeo, alguma coisa que ele não iria ficar de fora desse projeto. Ele era um homem incrível, todo mundo que teve a oportunidade de conhecer sabe que ele foi um grande homem, uma pessoa muito calma, que transmitia uma paz muito grande. Um grande artista, um grande músico, uma pessoa do bem, querida… Aquela pessoa que a gente ficava feliz de encontrar… E sempre me ajudou, sempre cantei com ele, sempre tocou comigo. Um grande amigo e uma perda muito grande para nossa música. Agora o bom é que ele deixou uma história bonita, deixou uma filha também que é artista. E o interessante é isso: o artista vai, mas a arte que ele deixou fica. E tenho certeza que Dominguinhos cumpriu a missão dele. Deixou muitas coisas bonitas pra gente. Músicas bonitas, mensagens de vida… Um homem muito bom. Um amigo muito querido.

“Procuro seguir esse exemplo dele (Zé Dantas), sempre pensando que a boa música não morre e que vale a pena a gente sempre fazer o melhor possível… Pela arte!”

EP – O cover de “One Last Cry” de Brian Mcknight (2006), que virou tema da novela Páginas da Vida, até hoje é lembrado como o sucesso que a lançou musicalmente pro Brasil, embora você já tivesse tido música na novela América e uma experiência como semifinalista do programa“Fama” da Rede Globo em 2004. O que mudou musicalmente na Marina Elali daquela época para cá?

ME – Ah, muita coisa! Quando eu comecei era uma menina… Agora sou mulher! (risos). Se bem que… No fundo, no fundo eu tenho uma alma de criança, tenho jeito de criança… Acho que vou ser sempre uma menina. Mas muita coisa mudou. Eu amadureci muito como pessoa, artisticamente também. Eu sou apaixonada por aquela gravação, canto aquela música em todos os meus shows… Foi a música que me colocou mesmo no cenário da música brasileira, inclusive internacional, tocou muito na Europa, nos Estados Unidos… Vários DJs chegaram a fazer versões “remix” dessa música, que foi lançada nos Estados Unidos e na Europa. Então foi uma experiência incrível. Graças a essa música ganhei meu primeiro Disco de Ouro, fui no Faustão pela primeira vez… Foi quando as portas se abriram. Foi uma fase maravilhosa, sou muito grata a todo mundo que me ajudou, fico muito feliz com as coisas que ela me proporcionou. Fui lançar meu disco em Portugal… Foi muito bacana. Depois veio isso normal, o amadurecimento artístico, pessoal, que acontece com o tempo mesmo. E bacana ter falado sobre isso porque quando eu sonhava em fazer um disco em homenagem a meu avô e a Gonzagão eu sempre pensava: “Meu Deus, eu não canto forró. Como é que eu vou fazer esse projeto? Eu quero fazer uma homenagem para os dois”. E aconteceu na hora certa, sabe? Coincidiu com o momento do Centenário (de nascimento de Luiz Gonzaga) e num momento meu muito mais maduro como artista, como mulher… Então foi bacana, porque tive essa coragem de fazer um projeto ousado, um projeto diferente, mas respeitando as tradições. Aconteceu num momento certo.

EP – Ter sido aluna da Berklee College of Music, uma das mais conceituadas escolas de música do mundo, foi uma vantagem para você na época do programa?

ME – Na verdade o que aconteceu foi o seguinte: Eu tinha desde criança uma vontade de morar fora do Brasil. Para aprender uma outra língua, pra ter a experiência de viver numa cultura completamente diferente da minha. Aí eu fui para Berklee e eu ia ficar só um tempo pra fazer um período, aprender alguma coisa, um pouco de inglês… Quando eu cheguei lá, comecei a aprender tanto, tão rapidamente absorver a cultura, a música, aprender a cantar melhor, a tocar. Foi quando descobri que era compositora. Foi uma explosão de conhecimento, de mudanças. Aí resolvi ficar e cheguei a concluir a faculdade. Hoje sou formada em música, em canto. E isso pra minha vida artística foi maravilhoso, pra minha vida pessoal também, pela experiência, porque eu tinha 17 anos quando fui morar sozinha nos Estados Unidos, não conhecia ninguém, não falava inglês, era uma menina mesmo… Foi muito bacana e me ajuda até hoje na minha vida. Pelo conhecimento musical e pela experiência mesmo. Por exemplo, quando eu entrei no “Fama” era um reality show, meio BBB. E eu fiquei naquela mesma casa, com câmera, com tudo. Só que na faculdade eu já tinha dividido quarto, apartamento… E isso aconteceu no “Fama”. A gente dividia quarto com os outros participantes. E eu não tive dificuldade nenhuma em relação a isso, porque já tive essa experiência. Já tinha conhecimento bastante pra ter coragem e cantar na televisão ao vivo, na frente de todo mundo. Foi muito bacana. Em relação ao programa, eu tive muito medo de entrar no início. Porque quando eu entrei já tava com o disco quase pronto. E já tinha um contato na Som Livre, o contrato quase assinado. Aí deixei tudo e fui pro programa e graças a Deus foi uma experiência muito positiva. Porque a gente sabe que é muito arriscado participar de um reality. No meu caso só me trouxe coisas boas. Tenho fãs até hoje que me seguem desde a época do programa, que torciam por mim… Foi uma experiência maravilhosa. E com certeza a experiência que eu tinha de fazer shows em Natal, já ter feito uma faculdade de música… Eu estava mais preparada. Se bem que eu não tinha experiência nenhuma com televisão ao vivo, muito menos na Globo nacional. Me dava um nervoso! Eu lembro que no primeiro programa, meu Deus! O olho arregalava, a mão tremendo… Mas depois me acostumei, foi muito bom e foi o que eu mais aprendi. Hoje em dia eu e a câmera, a gente se entende super bem! (risos)

EP – Ainda falando do “Fama”, hoje muitos programas dessa linha fazem sucesso no Brasil e no mundo. Qual o conselho que você daria para alguém que um dia deseje participar de um programa nesse estilo?

ME – Eu acho que quem tem vontade de ingressar no mundo musical, acho que é uma grande oportunidade de mostrar o trabalho. Estes programas são muito bacanas. Fiquei de jurada no programa do Raul Gil por um tempo, no quadro “Mulheres que Brilham”. Fiquei quatro meses e foi uma experiência ótima estar do outro lado, como jurada. Acho super importante, incentivo muito as pessoas que elas participem. Acho bacana que no Brasil tenha cada vez mais programas de talentos, porque muita gente é descoberta nestes programas. É uma forma de você divulgar o talento, divulgar o trabalho daquela pessoa. Acho que é super válido participar destes programas. Participar de forma sadia, sem muita competição. Vai ali e mostra o que é seu trabalho e pronto. Até porque ganhar ou não ganhar nunca foi a coisa mais importante. O principal de um programa de música é você mostrar o trabalho pro Brasil todo. Ganhar ou não ganhar, a gente sabe que isso aí não muda nada.Eu tou aí graças a Deus, gente também que fez sucesso e não ganhou, que foi pro paredão, enfim…

EP – Fora dos palcos, o que você não abre mão de ouvir? Quais são seus ídolos na música?

ME – Pra ouvir eu sou muito eclética, porque eu nasci no Nordeste, moro no Rio de Janeiro… Meu pai é estrangeiro, é árabe. Eu morei fora um tempo, meu namorado é gringo (risos)… Na época que eu estudei na faculdade, tinha amigos de todos os lugares que você possa imaginar. Do Japão a Colômbia. Então eu sou muito eclética. Gosto de música boa. Sempre gostei muito de música clássica. Adoro musica Pop internacional. Adoro ouvir tudo. Escuto forró, MPB, escuto Pop. Acho que cada música tem o seu momento. Agora eu estou numa fase de ouvir mais as minhas próprias músicas, porque estou me programando pra gravar meu próximo disco de estúdio, que vai ser bem autoral. Eu estou numa fase bem “Marina Elali”, porque estou ouvindo as minhas próprias composições! (risos).

EP – Hoje os artistas, com o advento das redes sociais e da internet, são cobrados a ter uma interação maior com seu público e, consequentemente, ficam mais expostos às criticas do seu trabalho. Como você lida com isso?

ME – Eu acho maravilhoso. Porque é uma forma de me comunicar diretamente com meus fãs em tempo real. Eu gosto. Tenho todas as redes sociais. Eu acho que é interessante e você dar o limite. Você posta o que você quiser. Você responde a quem você quer, você escreve o que você quer. Acho que vai de cada um. E acho que também é importante saber que tem gente que não tem respeito. Não preciso dar cabimento a quem não tem. Eu respeito cada um, aí vai de cada um mesmo. Graças a Deus em relação a isso o que eu mais recebo é carinho mesmo dessas pessoas. Por isso que eu gosto e é uma coisa que eu faço. Eu posto direto fotos. Acho bacana porque nunca houve nada sério em relação às minhas redes, de desrespeito… Sempre que escrevem é uma coisa carinhosa. Continua positivo. Se algum momento me incomodar eu acabo com isso e não faço mais. Mas nunca aconteceu não.

“O trabalho que eu me proponho a fazer, que é um trabalho mais Pop, ele exige que eu cante, que eu dance, que eu interprete, que eu troque de roupa… É quase uma atriz em cima do palco, né? Eu mudo de personagem no show várias vezes. Tem a hora da poderosa e a da sofrida.”

EP – Como uma cantora que trabalha com uma faixa etária de público jovem, como você viu a participação dos jovens nos protestos sociais no Brasil? Você se engajaria em alguma manifestação?

ME – Olha, eu acho que é importante, porque a gente não pode ser hipócrita. A gente sabe que a situação do nosso país é lamentável. Em relação a vários assuntos, que a gente não precisa ficar entrando aqui. Como educação, saúde… enfim. Eu acho que é valido sim a gente fazer manifestação, tem muita gente, até muito mais jovem do que eu, que se engajou, que foi pra rua… Eu sou muito contra o vandalismo, porque muitos protestos se transformaram em outra coisa. Acho que não adianta nada o vandalismo, porque a gente tá perdendo a razão quando tá fazendo isso. Violência, vandalismo não leva a nada. Os jovens acordaram e disseram: “Peraí, a gente quer um país melhor!”. Eu acho bacana. Sem vandalismo eu acho bacana. Acho que tem que ser ouvido, a gente tem que reclamar mesmo. Porque a gente merece ter num país melhor. A gente mora num país muito rico culturalmente, cheio de matéria-prima maravilhosa… Um clima maravilhoso, um povo muito feliz, trabalhador. Acho que a gente tem que reclamar mesmo e tentar melhorar cada vez mais o nosso Brasil.

EP – Além do talento reconhecido como cantora, você também é muito lembrada pela beleza. Existe algum cuidado especial com sua forma que você não abre mão de ter no dia a dia?

ME – Eu tenho vários cuidados, mas coloco em primeiro lugar a minha saúde. Acho que depois o resto é consequência. Você se alimenta bem vai ficar com o corpo bonito, pele bonita, cabelo bonito… Vai ficar feliz com a saúde mental. A gente colocando a saúde em primeiro lugar o resto é consequência. Pelos cuidados que tenho com a voz, já me ajudam muito. Por exemplo, eu não bebo, eu não fumo… Não vou muito pra noitada, não como muita coisa que faz mal pra saúde, termina que também não engorda… Mas eu boto a saúde na frente. E claro que eu confesso que eu sou vaidosa. Eu sou apaixonada por maquiagem… Sou aquela mulher vaidosa. Mas com limites também, sabe? Acho que hoje em dia tem muitas mulheres que sofrem muito pela beleza e em busca de uma perfeição que não existe. Acho que a gente tem que se cobrar menos, pra gente ser mais feliz. É a gente saber valorizar os pontos fortes. Se eu tenho o olho que é mais bonito, vamos valorizar. Se é o cabelo… Cada mulher tem que encontrar seu ponto forte. E valorizar isso e ficar feliz, agradecer a Deus, tem que comer bem, fazer um exerciciozinho, pra ficar com um corpo bonito, ficar feliz. Mas sem neuras, sem exageros, sem sofrimentos. Nada de dietas malucas.

EP – Em termos de futuro, quais são os projetos profissionais de Marina Elali?

ME – Olha, lancei o DVD, passamos pelo processo todo de divulgação, a gente tá fazendo muita TV, rádio, shows, sessões de autógrafos… Agora tou organizando minhas composições, tou compondo bastante para muito breve entrar em estúdio e finalizar um disco de estúdio, que já não lanço faz um tempinho. Esse disco comecei a produzir em Miami e já tou com várias músicas pré-produzidas, quase prontas. E na hora que eu tiver pronta pra lançar, acho que este ano devo estar com um disco novo nas lojas, aí vai ser um disco inédito, super autoral e é um disco que vem bem Pop, seguindo essa linha que eu gosto, do Pop, com influências internacionais… Essa coisa bem viva que é a minha marquinha registrada (risos).

EP – Voltar à carreira de atriz está ainda em seus planos ou é um projeto definitivamente descartado?

ME – Olha, na verdade eu fiz teatro na minha adolescência e gostava do teatro. Mas a música sempre foi a minha grande paixão. Eu fiz uma participação na Globo, numa minissérie, me convidaram, foi bacana e tudo. Mas, assim, se me convidarem pra fazer alguma coisa, claro que vou pensar com carinho, vou ver se eu tenho condições de fazer, se o papel combina comigo. Mas eu não tenho nenhuma pretensão de ser atriz ou me tornar atriz. A carreira de cantora já me consome e já me faz muito feliz! (risos). Até porque o trabalho que eu me proponho a fazer, que é um trabalho mais Pop, ele exige que eu cante, que eu dance, que eu interprete, que eu troque de roupa… É quase uma atriz em cima do palco, né? Eu mudo de personagem no show várias vezes. Tem a hora da poderosa e a da sofrida (risos). Então eu já me realizo muito no palco.

EP – Conte um pouco sobre suas origens árabes. O que a influencia no dia a dia? ME – O meu pai nasceu na Palestina, veio pro Brasil. Inclusive ele veio pra Recife direto. Ele tinha 13 anos. Conheceu minha mãe que morava em Recife e casaram. Quase nasci em Recife! E aí quando eles foram morar em Natal, eu nasci em Natal. Mas, assim, guardo muita coisa da cultura… Tenho muitos traços árabes, apesar da minha mãe ser brasileira. Acho que meu rosto é mais árabe que tudo. Eu adoro maquiagem, que é outra marca registrada. A coisa do cabelo preto que eu uso até hoje, o cabelo mesmo de árabe, né? Essa coisa do cabelão, do olhão preto, isso é muito árabe. Eu gosto muito de brilho, que também árabe gosta muito de brilho,eu uso muito no palco. E sou apaixonada pela dança do ventre, que eu danço nos meus shows também. Sou apaixonada pela dança e pela música árabe. Sempre nos meus trabalhos coloco alguma influência. Engraçado que neste projeto em homenagem a Gonzagão e meu avô eu coloco algumas coisinhas ali da dança árabe, da música árabe também. Amo a comida, gosto da música, gosto de tudo! Não tem como não gostar. 50% de mim é árabe.

EP – Você atualmente mora no Rio de Janeiro, mas é potiguar e com raízes também pernambucanas. Qual a relação de Marina Elali com Pernambuco?

ME – Moro no Rio já faz 10 anos. Depois que me formei na faculdade vim morar no Rio de Janeiro. E eu sou apaixonada pelo Nordeste, que é meu lugar e apaixonada por Pernambuco. Fui muito a Recife quando era criança, adolescente… Vou até hoje porque minha avó mora lá. Minha tia que já faleceu era de lá, então ia visitar meus primos. Sempre fui ver minhas tias, as irmãs da minha avó, todo mundo… E minha vida foi muito dividida entre Natal e Recife, porque a gente ia quase todo final de semana para Recife. Até eu brinco que quando eu era criança, não tinha nem shopping em Natal, então eu ia pro shopping de Recife fazer compras (risos). Eu adoro, tenho uma paixão muito grande. E uma das maiores emoções da minha vida foi receber o título de “Cidadã do Recife”, porque sempre tive uma paixão muito grande… eu queria ser recifense, e agora eu sou! (risos). A família toda com aquela paixão pelo Sport, meu pai torce pro Sport, eu também torço pro Sport.

EP – Defina “Marina Elali por Marina Elali”?

ME – Uma pessoa apaixonada pela vida, que vive intensamente cada momento com muita alegria. Com muita fé, muito determinada, que valoriza as coisas simples da vida… A família, a natureza e os momentos. Eu gosto de ser feliz, eu procuro ser feliz. Eu amo o que eu faço. Só quero plantar o bem nesse mundo, pra quando eu for embora saber que eu fiz o melhor que eu pude aqui. E que eu fiz o melhor trabalho como artista também, que eu deixei alguma coisa boa nesse mundo.

0 1043

Entrevista com Domingos Moreira

Manuella Asfora Russell

Fundador do Armazém Coral, o Empresário Português de grande visão e arrojo no cenário nordestino de negócios Domingos da Silva Moreira, 78 anos, nos conta sua trajetória pioneira no ramo de vendas de materiais de construção.Fundador do Armazém Coral, o Empresário Português de grande visão e arrojo no cenário nordestino de negócios Domingos da Silva Moreira, 78 anos, nos conta sua trajetória pioneira no ramo de vendas de materiais de construção.

Foto: Álvaro Di Paula

Foto: Álvaro Di Paula

Nascido em Gião, província campestre portuguesa, casado com Dona Lindalva Moreira, pai de quatro filhos (Dulce, Regina, Lindalva e Domingos Filho), foi no mínimo ousado ao chegar às margens do Rio Capibaribe em meio a antigos prédios, fábricas, casarios e construir a primeira loja de sua rede. E desde sua fundação no ano de 1961, vem escrevendo uma história de sucesso e grandes conquistas. Mais de meio século de existência marcado por muita determinação. Este devaneio teve início no Beco do Sirigado, próximo a Basílica de Nossa Senhora da Penha. A ideia era vender apenas tintas e ferragens no estabelecimento, porém, na década de 80 a história mudou. Através do pioneirismo em parcerias com fornecedores, passou a comercializar materiais de construção. Hoje, eleita a loja de material de construção mais lembrada pelo povo pernambucano (segundo a pesquisa Recall de Marcas, realizada pelo instituto Harrop/JC) e considerada a marca mais querida pelos consumidores (de acordo com a pesquisa “Marcas que eu gosto”, realizada pelo IPESPE em parceria com o Diários Associados), Seu Domingos tem muito a nos dizer.

EP – Na sua infância, Portugal atravessava o período da Segunda Guerra Mundial. Alguns dos seus irmãos, nesse período, decidiram migrar para a África, no entanto outros vieram para o Brasil, mais precisamente para o Recife. Qual a razão da escolha por Pernambuco nesse momento tão importante, e como foi chegar aqui sem nada e construir esse império da construção civil?

DM – Bom, eu vou falar primeiro sobre Portugal, depois explico a minha chegada em Pernambuco e como aconteceu o crescimento do Armazém Coral. A Europa atravessava a segunda guerra naquele tempo, e, apesar de Portugal não ter se envolvido diretamente na guerra, fez parte dela mandando alimentos para os outros países. Então, como eu lembro muito bem, naquele tempo vinham caminhões do exército e passavam pelas cidades levando tudo que viam, e não sobrava quase nada, eu lembro que até os ricos passaram por grandes dificuldades. A essa altura eu tinha por volta dos meus 11 anos, e fui trabalhar, mas não por ser vítima de Portugal, lá era comum que todos os garotos fossem trabalhar com 11 anos, é claro que depois da escola, e eu acabei indo trabalhar em uma marcenaria, pra ganhar alguns trocados, e lá eu passei os 8 anos seguintes da minha vida. Nesse período, aconteceu que meus irmãos resolveram ir para a África, que naquela época era governada por Portugal. Lá eles trabalharam como operários, eram muito trabalhadores, espertos, cresceram na construção civil, se deram bem. Mas, antes disso, o meu irmão mais velho veio para o Brasil, e foi trabalhar com um sobrinho do meu pai, que era também meu padrinho, e dono de um pequeno comércio aqui em Pernambuco. Os meus irmãos lá na África me convidaram para ir trabalhar com eles, mas, como eu tinha um irmão mais velho aqui no Brasil, eu optei por vir pra cá. E o fator que me levou a decidir vir para o Brasil, é que na Europa o Brasil é um país tão querido, mas tão querido, que quando um afilhado pedia a “benção” a seu padrinho, o padrinho lhe punha a mão na cabeça e dizia “Deus te leve para o Brasil, meu afilhado”. E então eu, nessa época com 19 anos, já um bom marceneiro, respeitado pelo meu patrão, vim para o Brasil em busca daquele sonho, mas chegando aqui no Brasil, para minha surpresa, eu não achei nada daquilo que eu imaginava encontrar, e me desapontei. Passei a noite triste porque eu não tinha melhorado, eu tinha piorado de situação, pois naquele tempo já não havia pobreza em Portugal, a minha santa mãe trabalhava em casa de família e cuidava muito bem de mim, eu andava bem arrumado, comia bem, isso tudo com o salário que nós ganhávamos. Aqui, esse meu irmão só me pagava um salário mínimo, e eu pagava a pensão, então não me sobrava nada para gastar, mas como dizem, a gente vai se acostumando com as coisas ruins, e por essas vamos ficando até mais fortes, e foi o que aconteceu comigo. Os anos se passaram, e esse meu irmão mais velho não era dinâmico como eu, era acomodado, e não me fazia bem a maneira com que ele tocava o seu negócio, eu já estava desanimado, e foi aí que e eu tive a felicidade de conhecer a Lindalva, fiquei encantado, e no momento que a vi eu disse “eu vou casar com essa moça”, eu fui na casa dela alguns dias depois, me apresentei, enfrentei a família dela, saímos juntos para o cinema, e 2 anos depois nós nos casamos. Eu ainda era pobre nessa época, não tinha nada, apesar de eu guardar todas as minhas férias nas mãos de meu irmão, então já tinha pelo menos onde morar. Compramos uma casinha velha, e 1 ano depois nasceu a nossa primeira filha, Dulce, e a minha esposa nessa época, que trabalhava na Caixa Econômica, ganhando um pouco mais do que eu, não quis mais deixar a menina para ir trabalhar, e então nós passamos a viver só com o meu salário. Foi apertado, e nessa situação eu pedi demissão onde trabalhava com meu irmão, porque eu não tinha mais condições de agüentar aquilo, eu tinha que fazer minha vida, ser aquele Domingos que comanda o próprio destino. Naquela época, Lindalva tinha uma casinha que fora de seu pai, na Travessa do Sirigado, e eu fui para lá tentar alguma coisa, fiz acordo com um fornecedor, e ele passou a me mandar sua mercadoria sem custo, e eu a revendia pelo mesmo preço, para as pessoas e comerciantes locais, e no fim de semana eu ia nesse fornecedor buscar uma pequena comissão que era mais que o salário que eu ganhava do meu irmão. Naquele tempo não havia essa facilidade de crédito, eu tive que esperar 4 meses pelo meu primeiro crédito, e foi com esse primeiro crédito que eu comecei a comprar para revender, e foi aí que eu comecei a crescer, e crescer, e crescer, e aí eu comprei outra casa, depois outra, depois outra, e fui comprando enquanto estavam com um preço bom. Por exemplo em Goiânia, eu comprei uma área enorme antes da estruturação do bairro, e em todo lugar que eu chego, eu vou antes da estruturação, era assim e ainda é. Eu não posso investir em um terreno 3 milhões ou 5 milhões só porque ele é bem localizado, não, isso eu tenho que investir na construção da loja, é assim que eu trabalho, e assim eu comprei um total de 14 casas por Pernambuco, essas que com a estruturação do bairro seriam as minhas próximas lojas. E já com tudo preparado, eu comecei a trabalhar como nunca, e trabalhei, e trabalhei, e trabalhei, minha esposa reclamava, todos reclamavam, mas eu estava ali, logo cedo trabalhando, e assim abrimos uma loja, depois outra, depois outra, e fomos abrindo, todas naquelas casas que lá atrás eu tinha comprado a um preço muito baixo, e quando aquele lugar crescia, eu abria ali outro Armazém Coral, que acompanhava o crescimento e faturava alto com aquilo. Hoje estamos com 20 lojas bem estabelecidas, e já estamos com planos de construir outras, mas para essas outras nós já compramos os terrenos antecipadamente, quando valiam 30 vezes menos que hoje. Assim cresce forte o Armazém Coral.

EP – Hoje em dia com globalização, o termo “imigrante” passa a ser ultrapassado, e com a internet, redes sociais e televisão tão difundidas pelo mundo, o choque cultural dos que hoje deixam o seu país de origem para viver em outro passa a não ser tão grande, mas em 1954 não existia essa “aldeia global”. Sendo assim, quais foram as maiores dificuldades para o “imigrante” Domingos da Silva Moreira deixar Portugal e vir para o Brasil?

DM – Bom, não encontrei muita dificuldade porque o idioma é o mesmo, e depois, eu apenas tive que me adaptar a uma terra maravilhosa, cheia de beleza. Quanto às diferenças culturais e econômicas, isso

tudo é uma questão de tempo pra se acostumar. E naquele tempo o Brasil era mais tranquilo, a violência era menor e as pessoas pobres não eram tão pobres como são hoje. E o povo brasileiro é muito mais fácil de lidar, então aqui no Brasil eu tive muita facilidade em me identificar com as pessoas. A verdade é que nós modificamos o mundo a nossa volta, não o mundo que nos modifica. Então, não vou dizer que foi tão difícil.

EP- Numa época que ainda não se falava em marketing, propaganda e ações promocionais, como foi explorar as dificuldades de um estabelecimento funcionar em um local que não tinha a menor inclinação para o comércio? (A Travessa do Sirigado, no bairro de São José)

DM – Ah, essa era uma verdadeira questão. A propaganda era quase toda feita boca a boca pelos próprios clientes do Armazém Coral, e vou te dizer, essa é a melhor e mais difícil propaganda que existe até hoje. Mas, às vezes, a gente fazia algum anúncio também, eu por exemplo dava um trocado para os rapazes falarem sobre o Armazém Coral na feira, ou onde tivesse gente. Eu procurava fazer alguma coisa, mesmo naquela época eu não ficava esperando do céu. Hoje com certeza é mais fácil, nós temos uma mídia muito competente que dá conta de tudo direitinho, eu não preciso me preocupar. Mas, naquele tempo, se você não tivesse um ponto comercial muito bom você tinha que se virar.

EP- Como se deu exatamente a mudança do Armazém Coral, que antes vendia apenas tintas e ferragens, para vender toda a linha de materiais de construção?

DM – Isso foi na década de 80. Nós tivemos diversas mudanças no Brasil naquele tempo. Eu vendia só tintas, mas chegou uma época que o Sarney fez um plano para o comércio, e esse plano esquentou bastante as vendas, e eu comecei a vender mais. Só que eu vendendo mais, também precisava comprar mais, e a fábrica de tintas me vendia, mas também vendia pra outros, e não dava conta de todos os compradores, e eu comecei a ficar sem o produto pra atender a demanda, que crescia cada vez mais. A essa altura, eu decidi procurar outros caminhos, e não ficar limitado ou à mercê daquilo. Foi quando eu investi nos materiais de construção, e então tudo mudou de figura. E pra você ter ideia, hoje os materiais de construção representam no Armazém Coral mais de 75% das vendas. Me dei bem (risos). Mas até aí, teve toda uma história por trás que me deu a segurança para dar esse grande passo que eu dei, já hoje não, as pessoas querem ganhar dinheiro muito rápido, e se não ganharem dinheiro muito rápido elas desistem. Isso está errado. Você tem que trabalhar no seu negócio com prazer, como a realização de um sonho, não só querendo casa na praia ou carrão do ano, que são coisas boas de se ter sim, mas que no final só atrapalham o seu negócio.

EP – Com tantos concorrentes de peso hoje no mercado, e com todas as mudanças que o mesmo tem sofrido, o Armazém Coral continua inabalável como uma das marcas mais respeitadas e queridas até hoje no mercado de tintas e materiais de construção. Qual é o segredo para manter o público pernambucano tão fiel e por tanto tempo?

DM – O segredo está no atendimento, na localização da loja e na credibilidade da marca. Os nossos funcionários são trabalhados para atender o nosso cliente bem. Eles fazem cursos, e os próprios fornecedores os ajudam a conhecer melhor a mercadoria. Mas quanto à concorrência, ela geralmente vai pelo caminho mais curto, e vai por aqui, e vai por ali, e ela quer ganhar muito dinheiro, e nessa busca por dinheiro rápido elas acabam não dando o valor que o cliente merece. Como resultado os clientes ficam insatisfeitos, e acabam voltando para o Armazém Coral.

EP – Qual o sentimento de receber a Comenda de Cidadão Pernambucano em 2007?

DM – Essa Comenda de Cidadão Pernambucano, pra mim, foi de um valor muito grande. Mas foi principalmente um reconhecimento pelo que eu fiz e trabalhei por Pernambuco. Eu fiquei e estou muito feliz, eu considero como um presente que Pernambuco deu pra mim. Mas como diz o velho ditado: é dando que se recebe.

EP – Muitos jovens empreendedores vão ler esta entrevista. Gostaria de saber qual o seu conselho para esses jovens empreendedores que estão começando agora o próprio negócio nesse Brasil que cada vez mais se destaca como a terra das oportunidades?

DM – Isso sobre o Brasil é verdade. Mas o conselho que eu sempre dou é que quem quiser começar um negócio, seja onde for, não deve querer ficar rico logo, porque quase todas as pessoas já começam assim, ou quando começam a ganhar um pouco de dinheiro já compram um automóvel, compram casa de campo, e isso atrapalha muito o futuro do negócio. O que você tem que fazer, seja o país frutífero ou não, é trabalhar, e trabalhar. Como eu disse antes, você é que muda o mundo a sua volta, não é o mundo que te muda.

EP – Grandes empresários costumam ter algumas frases ou livros que carregam sempre consigo em todos os seus negócios. O senhor teria também alguma frase ou livro marcante na sua vida como empreendedor?

DM – Há alguns anos, eu e Lindalva fomos de férias para Israel, e lá eu vi uma frase que eu gravei e carrego comigo em minha vida até hoje. A frase é assim: “Hoje é um dia que o Senhor Deus fez, me alegrarei e serei feliz.”

EP – O mercado de materiais para construção civil se destaca como um dos setores que mais têm atraído os novos empreendedores brasileiros. Segundo a Associação Nacional de Comerciantes de Materiais de Construção (ANAMACO), o faturamento do varejo nacional de materiais de construção saltou de R$32 bilhões em 2001, para mais de R$49 bilhões em 2010. Em sua opinião, esse grande crescimento mostra que o mercado ainda tem espaço para quem estiver realmente disposto a competir, ou o diferencial dos mais estabelecidos fará a diferença na escolha final do cliente?

DM – Para todos tem espaço, mas alguns trabalham mais e buscam a satisfação do cliente, e outros trabalham menos e esperam muito mais do que a realidade oferece, e o resultado é a realidade do seu trabalho. Essa é a matemática que faz a diferença.

EP – Essa mesma pesquisa aponta o crescimento cada vez mais notável das chamadas ‘’lojas de bairro’’, além de apontar uma das grandes dificuldades que o empreendedor tem para se fixar no mercado, que é conseguir montar seu negócio em um bom ponto comercial. Ainda hoje, mesmo com todos os recursos de marketing, propaganda, ações promocionais e até mesmo com as crescentes compras online ou pelo telefone, por que ainda existe essa grande dificuldade em se estabelecer como um bom ponto comercial?

DM – Não tem dificuldade. Se você quer abrir o seu negócio, você procura um lugar onde more gente. Se nesse lugar mora gente da classe C, você vai abrir uma lojinha pra classe C. Se nesse lugar mora gente da classe D, você vai abrir uma lojinha pra classe D. O mesmo sistema funciona com as classes B e A, que nesse caso vão preferir frequentar lojas maiores e mais bem estruturadas. Apesar de que, hoje as pessoas das classes D e C andam frequentando bastante as lojas maiores, que antes só eram frequentadas pelas classes B e A, e vou te dizer mais, eles quando compram, não querem material baratinho não, querem material de primeira. Então isso também ficou muito relativo. Você tem que ter um bom negócio e atender sempre bem o seu cliente, independente da classe dele. Essa é a segurança, e o respeito que eu ofereço no Armazém Coral.

EP – Quais políticas públicas podem ser adotadas para acelerar o crescimento do varejo do setor de construção civil no circulo nacional?

DM – Com certeza menos burocracia. As políticas públicas são fantásticas, mas é muita burocracia para elas. Era muito melhor se prometessem menos e fizessem mais rápido.

EP – Com a crescente digitalização das compras e vendas em todo mercado nacional, o senhor concorda que a tradicional ‘’venda de balcão’’ estaria com os dias contados? O que caracteriza uma loja competitiva no mercado atual?

DM – Não, ela não está com os dias contados. Ela vai ser mista, nem 08, nem 80. Mas essa é uma coisa que vai se modificando com o tempo, isso ainda vai demorar alguns longos anos. Vai ser pouco a pouco, nada radical como alguns especulam. Mas nós já mantemos as lojas bem atualizadas quanto a isso, temos todas as novas tecnologias e serviços disponíveis para atender todos os tipos de clientes.

EP – O Armazém Coral recebe todo tipo de público consumidor do mercado de construção civil. Certamente, um dos maiores desafios é o relacionamento com esses clientes, que variam do mestre de obra, passando pelos arquitetos, engenheiros, construtoras, até o consumidor final. Como atender com eficácia as necessidades de todos esses diferentes públicos, e conquistar por unanimidade o reconhecimento notável de todos eles?

DM – Se a pessoa está descalça, você fica descalço também. Se ele é um engenheiro, você vai ter que falar a língua dele, vai ter que ser mais equilibrado, vai ter que adotar outra postura, e é assim que fazemos. Nós treinamos os nossos funcionários para receberem todos bem. As portas estão abertas para todos.