JULIAN0 DUBEUX FLORES
Arquiteto e Urbanista
julianodubeux@julianodubeux.com
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Seja do topo da cúpula do Reichstag, ou do rooftop do shopping Bikini nas imediações do zoológico, a cidade de Berlin continua repleta de gruas.

Desde 1997, já acumulo 8 visitas a Berlim, sempre procuro acompanhar como evoluem as obras da reconstrução e sempre me deparo com novos edifícios. A verdade é que Berlim segue sendo conhecida como uma das mais descoladas capitais da Europa, palco ideal para as artes, e inúmeras outras atividades da Economia Criativa, uma cidade em constante mutação.

O fato de ter sido fortemente atingida pelos bombardeios da segunda guerra fez com que grande parte dos seus prédios históricos cedesse lugar a uma coleção de edifícios modernos, projetados pelos grandes arquitetos internacionais, na verdade, depois do conflito, Berlim sempre buscou destaque pela engenhosidade de suas obras: Siza, Niemeyer, Foster, Hadid, Unger, Stirling, Zumthor, Koolhas, são nomes fortes da arquitetura internacional que dividem espaço entre os quarteirões, e suas obras convivem muito bem.

Mesmo com um passado turbulento e sombrio, Berlim se esforça para superar seus traumas, aproximando arquitetos competentes das mais diferentes origens: Eisenman, Liebenskind, Ghery, Kleihues, Nouvel, Hollein, Grimshaw, Hedjuk, Pei, Alsop e Störmer, Chipperfield, Peichl… estão todos representados através de suas obras em Berlim! Ver exemplos de tantos arquitetos consagrados internacionalmente de uma única vez só é possível em Berlim e isto já vale a viagem.

A verdade é que tanta destruição e uma historia repleta de acontecimentos trágicos fez com que a cidade se esforçasse para atrair os nomes mais criativos da arquitetura mundial desde os anos 50. Uma situação, entretanto, chama atenção, a região de Postdamer Platz, um antigo cruzamento de vias que conectavam o oriente ao ocidente, que ainda era composta por oito diferentes rotas de articulação regional, havia sido tão bombardeada que ali restou apenas uma única antiga construção. Este setor logo após guerra foi dividido pelo famoso muro de Berlim, que aí possuía duas faixas paralelas, tendo entre elas um vazio que ficou conhecido como “a faixa da morte”… Extremo oposto do que havia sido a zona boemia mais animada da Europa, repleta de bares, lojas, restaurantes, cafés, teatros, cinema e cabarés que recebiam atrações de todo o mundo, e de repente se transformara numa espécie de não lugar.

Houve ali destruição tão intensa que logo após a queda do muro, em novembro 1989, a região foi eleita como um símbolo para a reconstrução da nova Alemanha, passando atrair o interesse S E BERLIM SEGUE SENDO UM ENORME E VIBRANTE CANTEIRO DE OBRAS Arquiteto e Urbanista julianodubeux@julianodubeux.com www.julianodubeux.com PARADIGMANDO DEZ / 2017 103 internacional. Em 1990, sobre os fragmentos da demolição do muro, realizou-se um show memorável do Pink Floyd – The Wall, reunindo tribos de jovens de toda Europa, estava definido claramente o centro que simbolizaria todos os esforços para recompor a identidade da nova Alemanha.

Em 1991, após o inicio das obras de reconstrução e através de um ambicioso plano de massas que dividiu a região em cinco setores, o famoso arquiteto Renzo Piano foi selecionado em rigoroso concurso de ideias que envolveram os mais destacados arquitetos internacionais. Um desses setores deveria conter edifícios com oito pavimentos, seguindo a tradição alemã, e estes deveriam ser posicionados às margens das vias definidas seguindo esquema bastante rígido de aberturas, na verdade, um plano bastante germânico.

A proposta vencedora, contudo, foi a desenvolvida por um italiano que subverteu as orientações do plano original e acresceu edifícios mais altos (vinte pavimentos) nas extremidades da gleba atribuindolhes formas em ângulos agudos que imprimiram a leitura de dinamicidade ao conjunto, numa clara alusão ao “burburinho” da velha e festiva Praça de Postdamer.

Renzo Piano, já famoso por projetos de destaque como o centro cultural Georges Pompidou em Paris, se destacava ainda pelo método de criação compartilhada desenvolvida em regime de workshop. O arquiteto num ato raro entre os vaidosos nomes do Jet Set internacional teve ainda a grandeza de convidar os cinco melhores colocados no concurso para com eles partilhar os projetos dos edifícios do complexo, garantindo uma diversidade saudável de estilos que se harmonizam perante orientações de alturas, materiais e cores. Forma-se assim, em minha opinião, um dos conjuntos mais inspirados de toda Europa.

Segundo o conceito do mestre, foi definido um skyline de traçado levemente curvo que se desenvolve a partir dos edifícios altos nas extremidades da gleba até os mais baixos nas quadras interiores (oito pavimentos) de tal forma que a vista da filarmônica de Berlim, projeto do destacado arquiteto Hans Scharoun, não só foi preservada como também enaltecida.

Sendo assim, a cidade de Berlim ganhou obras de destaque assinadas por gênios como Jahn, Rogers, Isozaki, Moneo, Kollhoff, Lauber, e Hohr além das do próprio Renzo Piano.

Os edifícios mistos abrigam novamente os usos mais diversos: moradias, escritórios comércio, serviços, bancos, teatros, cinemas, museus, cafés, restaurantes e mercados. Se unem numa profusão balanceada de atividades complementares que fazem dos 550.000 m2 de construção uma verdadeira cidade para o novo século. O complexo conta ainda com espelho d´água, fonte, jardins, estacionamentos subterrâneos, além de sua própria estação de metrô.

Vidro, aço, cerâmica, alumínio e sobretudo, muita tecnologia, são os ingredientes deste espaço público instigante que, mesmo tendo sido idealizado a mais de vinte anos, parece hoje mais novo e atual do que nunca.

Viva Berlim, cidade moderna, inclusiva e generosa que se reinventa, viva a esquina mais vibrante da Europa, viva Postdamer Platz que está hoje melhor do que ontem. Próximo ano eu estarei lá novamente.