Andrea Hunka

Dos vastos campos adentro, em terras excelentes para a criação de gado e a pratica da agricultura, há mais de trezentos anos, essas bandas  agrestinas já eram dividas numa sesmaria, que fundaria o sítio Caruru, dentre histórias e muitos contos, a capela em devoção a Nossa Senhora da Conceição, a fazenda virou ajuntamento de casas, deste vira um arruado, povoado, vila e dele nasce Caruaru, cidade considerada, e com vários atributos, que marchou firme em suas várias façanhas e causos.

Das terras primitivas de muitos povos, também dos povos Cariris (habitantes nativos da região) que em seu dialeto, traduziam esse nome, Caruaru, assim, Caru, alimento, Aru Aru, fartura, abundância. Então, já se explica o porquê de nesse lugar a opulência está ressaltada, desde sempre. Caruaru é um celeiro, na província da Borborema, num clima semiárido, com uma vegetação única no bioma mundial, a caatinga, com uma presença da mata atlântica em alguns pontos, de uma abastância infindável de possibilidades alimentares e artística, rica em cultura e tradição.

Aqui os bairros são oriundos das vilas, muitos nos arredores do rio ipojuca que trazia nas  balças os escambos e os muitos que vinham aqui buscar um lugar  seu. As Rendeiras, Murici, Vassoural são algumas dessas vilas e bairros que compõem Caruaru,  que contam história e traduz sabor, das plantas vastas que adornam seus nomes, como o fruto de Murici que doce encanta os meninos com as gororobas feitas com açúcar e farinha, das ervas que se traduz em remédio e instrumento de trabalho, como a vassourinha de botão, e nas infinitas artes desse povo como a renda de bilro.

A comida é tão farta que tem como conduta se tornar a maior do mundo, do bolo pé de moleque ao cuscuz, as festas são regadas as águas ardentes curtidas nos engenhos pernambucanos, as festas que teimam a nunca acabar, o terreiro é o lugar de dançar em volta da fogueira até o sol raiar.

Assim, encontramos Caruaru, Caruaru do mestre Vitalino, Galdino e tantos em uma infinidade de trabalhos únicos, das muitas histórias, do barro, da musicalidade. O motivo da nossa vinda era o festival, COMIDA DE FEIRA, o intuito era enaltecer a mais rica presença cultural desse lugar, a FEIRA DE CARUARU, que de tão grande, e com tanta variedade, conta por si só tudo que há aqui e acolá dessas terras. Foram dias  intensos, a vinda do chef Geo Bassani, oriundo de Londres, que mesmo sendo brasileiro, se encantou com a vasta possibilidade alimentar nordestina, todas aqui,  em um só lugar.

As muitas alas, onde as farinhas, ensacadas mostram as torras que se fazem nas  casas que as moem, os feijões, com suas múltiplas cores e aspectos. As charques para feijão e para assar na brasa, as gomas de mandioca, que tão branca alumiava o centro da feira. E os diversos doces, mariolas, bom-bocado, puxa puxa, tarecos. As ervas e seus cheiros nos levava aos sabores e nos convidava a uma vontade de degustar cada uma, alfavaca, semente de coentro, cominho, colorau, jatobá, cúrcuma, pimentas em variações, tudo para dar gosto e é para curar.

A feira de Caruaru, tem esse encanto, tudo tem, tudo se encontra, Onildo Almeida, compositor da famosa letra que leva nome, repete no refrão: “em tudo que há no mundo, há na feira de Caruaru”. Tem guisados, ensopados, o tão famoso bode assado, as buchadas, rabadas… a feira tem muitas caras, muitas histórias, pessoas que circulam há mais de trinta anos, vendedores ambulantes, transeuntes, misturas, assim como é essa cidade.

Das nossas muitas lembranças, a mais excitante está no povo alegre e receptivo,  na paisagem catingueira, as múltiplas opções e ricas variedades culinárias, dos umbus, madacarus, frecheiros, algarobas, dos  trapiás amarelos, dos bodes pés duros, que ainda rodeiam os campos livremente,  do barro e seus formatos que mexem com o nosso imaginário, dos carurus nas ruas que mostram a vastas possibilidades do seu bioma, rico mas pouco conhecido, a caatinga.

Caruaru, tem um “mundo” de arsenais, a cada visão, um contexto, que retrata sua forma crescente dentro esse nicho geográfico, dos prédios que já se levando em proporção, das casas de barro e taipas, que nos remete a uma vida prosaica, cheia de lembranças e uma sensação de sossego e paz. Caruaru, um lugar onde, ainda, se pode conviver entre a evolução da vida moderna, e o passado e suas tradições.